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Portugal

Pandemia dificulta negócios da caprinicultura na Serra da Lousã

A pandemia agravou antigas dificuldades dos negócios da caprinicultura na área da Serra da Lousã, onde grande parte da carne de cabra usada na chanfana tradicional vem de outras regiões.

Os grandes rebanhos que outrora pastavam na região, incluindo nas serras vizinhas do Açor e de Sicó, são hoje raros ou em geral não vão além das 100 a 200 cabeças.

Luís Fontinha dedica-se à criação de cabras em Góis, distrito de Coimbra, atividade que concilia com trabalhos silvícolas, como a plantação de espécies autóctones.

Possui uma centena de caprinos, incluindo cabritos que pretende vender na Páscoa.

“Devido ao confinamento, a possibilidade de as pessoas poderem ou não celebrar a Páscoa em família vai refletir-se na procura”, afirma à agência Lusa.

Luís produz queijo para consumo próprio e ainda não está em condições de comercializar chanfana.

“A minha escala é pequena”, justifica. A maioria das fêmeas está em idade fértil, com potencial no leite e nos cabritos.

Cidália Rodrigues e o marido, Prudente Dias, têm oito caprinos, na zona de Penela.

Trabalham mais na confeção de queijo e ainda compram leite a outros produtores.

“Está a estragar-se muito queijo”, lamenta Cidália, à Lusa, no mercado na Lousã, com a permanência de clientes condicionada pelas atuais regras de saúde pública.

O casal tem procurado travar a quebra de vendas, nos mercados e feiras, com uma aposta na venda porta a porta.

“As pessoas se calhar até comiam… Mas muitas não têm emprego, nem dinheiro”, refere.

Cidália conta que o queijo curado “está a sair menos” e que “também sobra muito fresco”.

No concelho da Lousã, Belarmino Simões percorre cumes e barrocas a apascentar mais de 60 cabras e ovelhas.

No curral, o pastor tem ainda sete borregos. Várias cabras darão à luz por estes dias.

Só que o confinamento pela pandemia da covid-19 está novamente a cortar as voltas ao produtor.

“Se não soubesse orientar a minha vida, não aguentava”, revela à Lusa.

Belarmino queixa-se dos entraves da situação sanitária e realça que mantém a exploração familiar sem pedir apoios ao Estado.

“É tudo com o meu dinheiro”, acrescenta, para explicar que os “preços muito baixos” pagos pelos hipermercados “desmotivam os pequenos produtores”.

Espera ter alguns cabritos e borregos para vender na Páscoa, já que um talho da Lousã lhos costuma comprar. Mas, até lá, vive numa “grande incerteza”.

Prevê ainda vender duas cabras, “carne de excelente qualidade” para chanfana.

Em Miranda do Corvo, Olímpio Rodrigues especializou-se desde a juventude nos negócios de cabras, ovelhas e porcos.

Atualmente, tem “apenas meia dúzia” de caprinos para consumo próprio.

“Quando acabaram com as feiras de gado, isto acabou tudo. Os lavradores deixaram de criar”, afirma o reformado à Lusa.

Para chanfana, prato de cabra assada com vinho tinto em forno de lenha, “a maior parte da carne vem de Espanha e de outros sítios em Portugal”, sobretudo de Trás-os-Montes.

“E, às vezes, há quem coma ovelha por cabra”, admite Olímpio, realçando que a primeira “também custa menos” e que o Alentejo tem lugar preponderante na produção nacional de ovinos.

O antigo atleta Virgílio Soares, que representou Portugal seis vezes em competições internacionais de marcha, tem orgulho no seu capril, na Lousã.

Sete cabras, um bode e cinco cabritos beneficiam do pasto abundante que as últimas chuvas têm proporcionado, numa área cercada no centro da vila.

Além de palha, silvas, erva, heras e laranjas derrubadas pelo vento, os animais raramente comem rações.

“As cabras pouco ganho dão. Há a vantagem de termos o terreno limpinho”, salienta.

Operário fabril, Virgílio não faz negócio com os animais e reserva igualmente à economia familiar os produtos agrícolas do seu lavrado.

No primeiro confinamento, em 2020, os clientes de Ricardo Correia “estavam com medo que acabasse o mundo”, o que afetou o movimento do seu talho, na Lousã.

Tem conseguido cabritos e cabras para responder à procura, numa terra onde a chanfana é uma das iguarias mais populares da gastronomia regional.

Com os restaurantes fechados, a carne do pequeno ruminante “ainda se vai vendendo”.

“Mas o negócio foi um bocadito abaixo”, reconhece Ricardo.

Lusa

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