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Artigos de opinião

Opinião Luís Capucha: Neo-esclavagismo e animalismo: farinha do mesmo saco

Demasiada gente se mostrou surpreendida com a descoberta de trabalho escravo no nosso país. Surpreendida? Ou cúmplice de uma indignidade que conhecia e tolerara? Está claro que as lágrimas dos surpreendidos são de crocodilo. Não, o esclavagismo dos nossos dias não é reminiscência do passado, trata-se de novos escravos trazidos pornovos mercadores de escravos para exploração no nosso país. Como tem acontecido com muitos outros fenómenos, foi a COVID-19 que destapou a situação, em Odemira, que, porém, medrava enquanto demasiada gente tapava os olhos, muito para além desse confinamento.
Acordaram para a realidade os meios de comunicação social (que, na verdade, deveriam ter sido os primeiros a procurar essa realidade, mas também se dizem surpreendidos) e agora todo o país sabe da situação que nos envergonha, não apenas nesse concelho, mas por todo o lado. Bem se pode dizer que não é só em Portugal, porque com o mal dos outros podemos bem. De facto, começam agora a escrutinar-se outros locais distantes do concelho alentejano, em que se utiliza mão de obra escrava na agricultura, bem como noutros sítios, incluindo as lojas e lojecas de quinquilharia que invadem os espaços urbanos, trazendo até debaixo das barbas dos urbanitas uma realidade que, como urbanitas, não são capazes de ver, porque não querem saber dos vizinhos para nada. Apenas porque julgam que isso de ligar aos vizinhos é parolice provinciana, indignam-se com o longínquo, e não vêm o que têm debaixo dos seus narizes emproados.
E assim se foram disseminando situações com a gravidade dos factos que agora nos indignam. Mas, para quem quiser ver, estas situações são apenas o pico visível do capitalismo neoliberal, com a sua falta de escrúpulos e de valores que não sejam a idolatria da acumulação e da competição a qualquer custo. O neo-esclavagismo é apenas o aspeto mais dramático de uma família de fenómenos sabotadores dos direitos no trabalho, que incluem a precariedade, o assédio laboral nas suas diferentes formas, o desemprego, a compressão dos salários e a tentativa de desmantelamento das instituições do trabalho regulado e com direitos.
Às dinâmicas de reversão da qualidade do emprego correspondem alguns dos principais problemas do mundo atual, como seja o extremar das desigualdades sociais, o triunfo do individualismo egoísta, o consumismo como valor de realização pessoal e a crescente anomia.
É dessa anomia, do enfraquecimento dos valores que suportam os laços sociais e a solidariedade entre pessoas e grupos, que resulta uma outra tendência política e valorativa parente do neoliberalismo: o animalismo. É que à medida que certas categorias sociais de urbanitas e sub-urbanitas deixam de ligar aos vizinhos, tendem a substituir pessoas por animais nos seus afetos. Não é que haja um problema com os afetos em relação aos animais, mas há um grande problema quando eles jogam um jogo de soma nula em relação aos afetos para com as pessoas.
Esta perda de sentido humanista e de empatia para com o semelhante nunca tinha ocorrido na história. O Homo Sapiens sempre traçou uma clara linha de demarcação entre o que era a natureza e o que era ele próprio. É essa linha que se esbate. Curiosa e dramaticamente, à medida que seres humanos perdem direitos (nomeadamente os trabalhadores), alguns querem estender os direitos a seres não morais nem éticos, como os animais não humanos. Têm a apoiá-los poderosas forças económicas, como as indústrias pet, que fazem lucros fabulosos à custa das novas sensibilidades narcísicas, e as indústrias culturais de massas, empenhadas em uniformizar padrões culturais e em anular todas as culturas dissidentes e insubmissas, como a tauromaquia.
São também essas poderosas forças que constroem uma das grandes falácias dos nossos dias, travestindo de científicas as ideologias animalistas. Nomeadamente procurando fazer passar a ideia de que os animais são iguais às pessoas. A ciência, na verdade, não autoriza os abusos do discurso animalista. Ela mostrou aquilo que qualquer camponês, qualquer caçador-recoletor, qualquer toureiro, qualquer pessoa que tenha contactado com animais na natureza sabe: os mamíferos superiores e algumas aves são seres sencientes, isto é, são capazes de experimentar sensações básicas, como o medo, a alegria ou a tristeza. Alguns até de resolver problemas simples. Podem também partilhar com os humanos alguns domínios da inteligência emocional. Mas não mais do que isso.
Os animais comunicam, mas não são capazes de construir e usar uma língua e, portanto, de formar os conceitos que apenas se expressam numa língua. Isto é, de acordo com o que a ciência hoje pode demonstrar, sentem, mas não pensam com base em conceitos abstratos e em relações entre conceitos abstratos. Nem são capazes de construir cultura e diversificar, com base nela, a diversidade de modos de vida, como fazem os humanos. E é por isso que não podemos referir-nos aos animais com base em conceitos, como o de sofrimento, que só nascem nos cérebros humanos. E é pode isso que, por mais que se desenvolva (e bem) o direito animal, é impossível aceitar a ideia dos direitos dos animais.
A confusão entre direitos humanos e direitos animais pode ser fatal. Para os homens, e também para os animais. A relação com a natureza, e com os animais, é crucial em tempos em que o aquecimento global ameaça toda a vida na terra. Mas a esperança na reversão dos crimes ambientais que as nossas sociedades produziram não pode ser encontrada fora do que os homens podem encontrar. E passará, seguramente, pelo respeito absoluto pelos direitos das pessoas e pelo dever das pessoas protegeram a natureza e, naturalmente, as outras pessoas.

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