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Sociedade

Portugueses no Brasil: “Sinto que tenho mais hábitos brasileiros do que portugueses”

Catarina Amaral é a segunda ‘personagem’ da série de reportagens ‘Portugueses no Brasil’

O Ceará, estado brasileiro, será o destino de Catarina quando vier para o Brasil. (Foto: Pixabay).

Assim como diversos brasileiros enxergam em Portugal uma chance de vida melhor, há portugueses que veem no solo brasileiro a chance de uma vida mais estável, com novas oportunidades e uma perspectiva de futuro. Pensando nestas histórias, que por vezes podem não ser contadas, idealizamos uma série de cinco reportagens intituladas de ‘Portugueses no Brasil’, com histórias de portugueses que aterrizaram em solo brasileiro, com as suas perspectivas de vida, e suas impressões sobre as diferenças entre as duas pátrias. Confira abaixo o segundo texto da série ‘Portugueses no Brasil’:

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A advogada Catarina Amaral tinha planos de mudar de País em meados de junho deste ano, e trocaria Lisboa por Tauá, no Ceará. Entretanto, por conta da pandemia do coronavírus os planos tiveram de ser adiados momentaneamente.  

Segundo a mestranda em Direito Fiscal na Universidade de Lisboa, o amor teria motivado a sua ida a terras brasileiras. Após dez anos em Portugal, sua noiva decidiu regressar para o seu país de origem, e Catarina decidiu partir com a amada para solo brasileiro. 

++ 1º texto da série ‘Portugueses no Brasil’: “Senti-me revoltada por ter de vir para cá, eu não queria”

As duas escolheram o Ceará por ser a terra natal de sua noiva, e por onde grande parte de sua família está, fator que também foi decisivo e motivou o retorno ao país ver de e amarelo. A irmã de Catarina tem várias irmãs, e uma a uma todas foram para Portugal tentar uma vida melhor em terras lusitanas.  

Catarina conta que há um ano atrás uma das irmãs de sua noiva retornou para o Brasil desiludida com a burocracia que enfrentou ao tentar legalizar o seu visto para permanecer em Portugal, e cansada de tantas negativas decidiu retornar para o seu país de origem.  

Depois da ida de uma das irmãs, as outras começaram a cogitar a possibilidade pelas saudades dos familiares que ficaram no Brasil. Segundo Catarina, o ‘bichinho’ do regresso começou a mexer com todas elas, e a sua noiva será uma das primeiras a retornar para o Brasil. Ela acredita que depois da partida de sua noiva todas irão retornar com o passar do tempo, já que as questões vistas por ela como problemas também são relatadas pelas outras irmãs como uma situação negativa em Portugal. 

Catarina ainda aponta que não só o processo de legalização no País e as burocracias fizeram com elas desejassem voltar para o Brasil, mas também a saudade da mãe, que permanece no Brasil. A distância da matriarca faz com que a terra lusitana não tivesse o mesmo peso que o Brasil tem na vida das irmãs. 

A advogada relata ainda que acredita que após a partida das irmãs, apenas uma provavelmente permanecerá em terras portuguesas, por não querer retornar para o Brasil, já que, segundo ela, a pátria amarela seria sinônimo de pobreza para esta irmã. 

Cenário brasileiro 

Com o passar dos meses e o respeito ao isolamento social, Portugal conseguiu se preparar para sair da quarentena e voltar ao ‘normal’, podendo reabrir os centros comerciais e retomar atividades paralisadas pelo isolamento social. Entretanto, a situação é diferente no Brasil, que é considerado o novo epicentro do coronavírus, com aumentos constantes no número de casos e de mortes. 

++ Brasil bate recorde de novos casos de coronavírus no mundo em 24h

Além das questões ligadas a saúde, o País enfrenta uma crise econômica e política, com manifestações pró e contra o governo de Jair Bolsonaro. O Brasil ainda se tornou destaque no mundo por “esconder” dados de mortes por covid-19, depois que o Ministério da Saúde anunciou a decisão de modificar a forma de divulgar os dados sobre o coronavírus no Brasil em meio ao aumento de casos, o que gerou repercussão internacional, fazendo com que os principais jornais do mundo destacassem negativamente as mudanças. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também se posicionou sobre o caso, pedindo “transparência” ao Brasil. 

Para Catarina, este não é o momento de se mudar para o Brasil, mas assim que passar a turbulência da pandemia ela acredita que conseguirá realizar a mudança, em suas palavras, “radical”. Quando aterrizar em solo brasileiro, os planos de que caminho seguir já estão muito bem definidos. Como ela leciona na Faculdade de Direito de Lisboa, pretende seguir com a sua profissão no Brasil. 

Como a advogada, Catarina já possui um amplo conhecimento em sua área, tentará fazer a equivalência de seu diploma no Brasil, e dar prosseguimento ao seu plano de carreira em Portugal, que era continuar com os estudos de magistratura, e exercer um cargo como juíza e lecionar. 

Visão sobre o Brasil 

Por conta de sua noiva e dos familiares dela, Catarina tem um contato maior com a cultura brasileira, e, por isso, ao contrário de outros portuguesas já está acostumada com as diferenças culturais entre os dois países. 

A ‘alfacinha’ – nome pelo qual são conhecidas as pessoas que nascem em Lisboa – ressalta que sempre teve uma grande paixão pela cultura verde e amarela, mas que agora sente que os hábitos brasileiros já foram incorporados a sua vida de tal forma que já os valoriza como seus, e possui mais afinidade com eles do que os hábitos dos portugueses. 

Catarina admite que tem certo receito de como será a sua vida no Brasil pelo que tem visto no noticiário sobre o país, e teme o futuro. Sua noiva também está apreensiva com a volta ao seu país de origem por ter ficado dez anos distante do Brasil, e muitas mudanças terem acontecido durante este período.  

Mesmo com estes temores e receios, a advogada crê que será bem-vinda em solo brasileiro, acreditando que será mais valorizada profissionalmente no Brasil e torce para que sua vida seja melhor na pátria de sua noiva.  

A advogada confessa que um de seus maiores temores antes de decidir partir para o Brasil era a criminalidade, que é dita por estrangeiros e pelos próprios brasileiros como uma questão a ser resolvida no País, porém, esta não é uma de suas preocupações mais latentes de Catarina hoje em dia por não estar vindo para uma das grandes cidades, onde os índices são maiores e os problemas com a segurança pública  e saúde são tidos como maiores. Para Catarina, infelizmente, está é uma das “visões” que diversos estrangeiros costumam ter sofre o Brasil, ressaltando que certos estereótipos sobre o país persistem no imaginário de diversas pessoas. 

A portuguesa relata que agora um de seus maiores temores se refere a propagação do coronavírus no Brasil, que está se alastrando cada vez mais e já se tornou uma das preocupações apontadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Segundo Catarina, ela teme como a questão da saúde está sendo conduzida por achar que o sistema nacional de Saúde é “muito fraco”. 

Beatriz Bergamin

Canal Alentejo

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